Frederico Vasconcelos

Interesse Público

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Repórter especial, trabalha na Folha desde 1985. No blog, reúne textos investigativos, aborda gastos públicos, política nacional e judiciário.

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Canalizar a indignação para o diálogo

Por Frederico Vasconcelos

“Ou dialogamos, ou o gigante vai bater à nossa porta”, afirma magistrado gaúcho.

 

Sob o título “O gigante acordou. Pra onde ele vai?”, o artigo a seguir é de autoria do juiz de Direito Newton Fabrício, do Rio Grande do Sul. Foi publicado originalmente em seu blog “Peleando contra o Poder” (*).

 

 

O gigante acordou. Creio que todos gostamos disso. O gigante foi pra rua. Não existe melhor notícia. O problema é que ninguém sabe, exatamente, para onde caminha o gigante. Porque parece que nem o gigante sabe. O gigante só sabe que está indignado com muitas coisas – na grande maioria, com razão. Pra onde vai o gigante? O que vai fazer? Vai ser sensato e pacífico? Vai se perder com tantas emoções, passionalismos e indignações (nem todas apontando para o mesmo rumo, algumas até contraditórias)? Qual o caminho que escolherá o gigante, se nem ele sabe? No peito do gigante, há muitas encruzilhadas. Na sua frente, também.

O problema é que, em todas as vezes anteriores em que o gigante foi para a rua, havia um rumo definido (anistia, diretas já, fora Collor). Agora, são muitos rumos – e cada parte do gigante quer caminhar pra um lado. É difícil conciliar o coração com a cabeça do gigante. Porque se o coração está indignado (e com muitos motivos), a cabeça fervilha, olhando pra todos os controversos caminhos da encruzilhada: todas parecem prometer apontar para o norte, embora talvez seja o sul. Ou o poente. Não seria melhor olhar para o nascente? Mas onde está o nascente?

O que talvez não esteja sendo percebido com a devida clareza é que o povo na rua expressa o inconsciente coletivo de toda a nação. Ele expressa, acima de tudo, a indignação da ampla maioria dos brasileiros. Mas a indignação tem muitíssimas causas: por isso, é tão difícil entender para onde vai caminhar essa multidão. Por isso, é necessário canalizar essa indignação para o diálogo, antes que seja tarde. Ou dialogamos, ou o gigante vai bater à nossa porta – e, então, sem a mínima vontade de dialogar.

Mas, a essa altura, surge uma pergunta: como dialogar com o gigante? Como dialogar com a massa que está nas ruas, se não existem claras lideranças a representá-la?

A História traz a resposta: é nos momentos de crise que surgem as oportunidades, as ideias e as lideranças.

É a hora de propiciar o diálogo, a base da Democracia. Oportunizando o diálogo com a massa, os líderes surgirão naturalmente do meio da multidão. Como fazer isso? Realizando debates e seminários públicos, com ampla divulgação no rádio e na televisão, sobre os rumos do País a partir dessa realidade que bate à nossa porta. É realizar a Democracia direta, transformando o país em uma grande Ágora, a praça grega onde surgiu a Democracia.

Ficar calados não vai nos ajudar. É a hora de refletir, de fazer algo, de colocar as ideias em prática. É preciso dialogar com a sociedade, com os seus diversos segmentos. É preciso questionar, buscar entender a crise e as soluções possíves. Tentar entender por onde caminha o futuro.

Por tudo isso, seria importante a realização dos seminários públicos, trazendo intelectuais (historiadores, cientistas políticos, filósofos, sociólogos, escritores) para debater, com o convite aos diversos segmentos sociais para se fazerem presentes e se manifestar, com ampla divulgação na mídia.

É a forma de canalizar a indignação do gigante para o diálogo produtivo, evitando que a baderna ganhe corpo e se alastre.

É preciso, enfim, acreditar na Democracia – e no poder do diálogo.

(*) http://www.peleando.net/

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