Frederico Vasconcelos

Interesse Público

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Repórter especial, trabalha na Folha desde 1985. No blog, reúne textos investigativos, aborda gastos públicos, política nacional e judiciário.

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O mensalão e a corrupção das imagens

Por Frederico Vasconcelos

Em 1969, quando José Dirceu e outros presos políticos foram trocados pelo embaixador norte-americano Charles Elbrick, sequestrado no Rio de Janeiro, ficou registrado em foto oficial o ato político do ex-líder estudantil, que levantou os braços para deixar documentado que estava algemado (o gesto contrasta com prisões de políticos e empresários investigados por corrupção, que cobrem as algemas quando filmados).

Na mesma ocasião, no Recife, a polícia tentou evitar fotos quando o dirigente comunista Gregório Bezerra deixava a Casa de Detenção para embarcar no mesmo voo que levaria o grupo de presos políticos ao exterior.

Uma viatura policial entrou em marcha à ré, ocupando toda a área do portão principal da prisão, para impedir que fotógrafos e cinegrafistas registrassem aquele momento.

Percebendo a manobra, Gregório foi mais esperto. Antes de entrar no camburão, subiu no estribo e passou a acenar para os fotógrafos que, no alto das árvores, aguardavam havia horas sua saída do cárcere. Os flashes pipocaram, para desespero dos policiais que gritavam, inutilmente: “Estão proibidas as fotos! As fotos não estão autorizadas!”

No aeroporto dos Guararapes, uma tropa fortemente armada mantinha a imprensa à distância. À época repórter da revista “Manchete“, o editor deste Blog ouviu de um oficial da Aeronáutica a ordem coletiva que bem resumia a censura praticada durante a ditadura: “Não há perguntas!”

Nos dois episódios, Dirceu e Gregório vislumbraram a importância histórica de seus gestos, antevendo o instante exato para que fossem registrados.

Ao se entregarem nesta sexta-feira à Polícia Federal, José Dirceu e José Genoino ergueram os braços, punhos fechados, aparentando emprestar à prisão determinada pelo Supremo Tribunal Federal uma dimensão política que não convence, num gesto midiático para uma multidão inexistente.

Guardadas as devidas proporções, a atitude dos dois condenados por corrupção na ação do mensalão assemelha-se ao “V da vitória” acenado por Paulo Maluf, em Paris, depois de prestar depoimento à polícia francesa. Era um vitorioso artificial, possivelmente tentando disfarçar o constrangimento da cena.

Antigos adversários políticos, reunidos anos depois por interesses eleitorais, Dirceu e Genoino, de um lado, e Maluf, de outro, estão agora mais próximos. Eles têm em comum o reconhecimento pela Justiça da prática de corrupção.

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