Frederico Vasconcelos

Interesse Público

 -

Repórter especial, trabalha na Folha desde 1985. No blog, reúne textos investigativos, aborda gastos públicos, política nacional e judiciário.

PERFIL COMPLETO

Publicidade
Publicidade

“Home office” no Judiciário, uma utopia?

Por Frederico Vasconcelos

O artigo a seguir é de autoria do juiz Ezequiel Rodrigo Garcia, de Joinville (SC).

 

“Continuamos a desperdiçar tanto tempo e energia como os que eram necessários antes da invenção das máquinas; nisto fomos idiotas, mas não há motivo para que continuemos a ser” (Bertrand Russel).

I – Acabo de chegar ao fórum. Estive aqui de manhã. Era umas onze e meia quando saí pra pegar as crianças no colégio (minha esposa só sai do serviço à tarde); almocei na rua com os pequenos, depois os deixei em casa, com uma estranha (a nova empregada), troquei de roupa às pressas, peguei um trânsito terrível (nesse horário é sempre assim, ainda mais com essa chuvarada), só consegui estacionar porque tenho vaga privativa, e aqui estou novamente, sentado no meu “posto de trabalho”, devidamente fardado, com o ar condicionado a plenos pulmões.

Enquanto escrevo, a assessora me traz a garrafa de café preparada pela copeira, diz que colocou as águas na geladeira e que a faxineira já limpou o novo armário que o tribunal mandou.

Percebi que no intervalo do almoço trocaram a lâmpada que havia queimado por causa da sobrecarga elétrica do prédio.

II – Li ontem o relatório da elogiável pesquisa realizada pela CGJ sobre a saúde dos magistrados catarinenses – realmente preocupante. Que o alarme sirva para mudanças de atitudes, pessoais e institucionais!

III – Também li o e-mail da presidência do TJ anunciando que os seis próximos juízes especiais da Capital não terão gabinete próprio, ao menos por ora, dada a ausência de espaço físico para tanto (como, aliás, se tem visto em todo o Estado, com acentuado e irreversível agravamento). Sem contar os inúmeros problemas estruturais nos prédios dos fóruns, muitos dos quais só podem ser solucionados com vultosos investimentos.

IV – Nesta semana estou dedicado à enfadonha tarefa de tentar acalmar os ânimos das servidoras do cartório. Andaram “se estranhando” de novo. Compreensivo. Tantas pessoas apinhadas em reduzido espaço físico, submetidas dia-a-dia a contínua pressão, cobranças de toda ordem e energias negativas, inevitavelmente acabam se aborrecendo e se violentando mutuamente.

V – Afora o sagrado tempo de sono, passo muito mais tempo da minha vida neste gabinete absolutamente impessoal do que em casa, o que em nada contribui para o exercício criativo da jurisdição: uma necessidade dos novos tempos.

VI – Ano passado (em junho) passei alguns dias internado na UTI, entre a vida e a morte, como estou até hoje. Quando tive alta, prometi a mim mesmo e à minha família que ficaria mais tempo em casa…

VII – O processo eletrônico já está em funcionamento em muitas unidades do Poder Judiciário de Santa Catarina. Até o final do próximo ano, deve ser implementado em todas.

VIII – Daí lembrei da entrevista do Desembargador José Renato Nalini, recém eleito Presidente do TJ-SP, na Folha de S. Paulo de domingo. Dentre outras coisas, comprometeu-se a estudar a possibilidade de regulamentar o ‘home office” (trabalho em casa), como forma de amenizar os gastos públicos e congestionamentos, até mesmo nos elevadores dos fóruns e tribunais. Disse, em tom de evidente crítica, que trabalhamos num fordismo, como se tivéssemos uma bola de ferro amarrada nos pés.

Não pude resistir a uma rápida reflexão sobre a inutilidade do meu esforço pra chegar tão depressa, tão afobado, ao meu “posto de trabalho”. Quanto desperdício!

Afinal, de que adianta o meu deslocamento físico, se posso ler e redigir em qualquer computador do mundo?

Como diz Domenico de Masi, a cabeça é diferente do corpo: ela carrega o trabalho para onde quer que vá.

Em todo tempo levamos trabalho pra casa, ainda que involuntariamente. Lides são resolvidas no banho, na caminhada, no jantar; raramente se desvencilham de nossos pensamentos.

Imagino (sonho) como seria se eu pudesse trabalhar em casa. Montaria um aprazível escritório, com amplas vidraças para o jardim, belos quadros, os livros cuidadosamente arrumados numa vistosa estante, som ambiente, abundantes ventilação e luminosidade, sossego e um violão ao lado do sofá. Entre uma e outra decisão, um dedilhado qualquer, uma melodia tola pra desanuviar. Talvez trabalhasse só de calção nos dias de verão e de pijama nos de inverno. Alternaria momentos lúdicos com a concentração imprescindível aos bons julgamentos. Travaria calorosas discussões jurídicas com Dimitri (o cachorro que ainda não tenho). E faria muitas caminhadas – alguns grandes pensadores da História tinham esse hábito, o que levou cientistas a afirmarem que andanças descontraídas e desatreladas de tempo e distância são excelente forma de estimular o raciocínio.

Nos processos mais complicados, possivelmente sairia eu de bicicleta pela cidade, sem rumo, só para refletir – hoje já se sabe que a atividade física oxigena o cérebro e o torna mais ativo, mais eficiente.

Tenho absoluta certeza de que minha produção melhoraria muito (em quantidade e qualidade), assim como minha saúde (física e mental). Eu teria maior convívio com meus filhos e esposa; não perderia tanto tempo no trânsito; poderia almoçar e lanchar em casa. O tribunal teria enorme economia – e eu também; meu carro ficaria na garagem e o meio ambiente agradeceria. Só vejo vantagens!

Eu viria ao fórum nos dias de audiências ou para me reunir com a assessoria. Seria até um passeio gostoso. Uma ou duas vezes por semana teria esse contato direto. Imagino que estaria mais leve, mais lúcido – sim, porque o encurralamento no “posto de trabalho” nos isola socialmente, irrita, aliena, é improdutivo e antieconômico.

Eu estabeleceria meus próprios horários. Iria começar bem cedo, quando me dedicaria às decisões mais complexas. À tarde me daria o prazer (também muito saudável ao cérebro) de uma sesta, trataria do que fosse mais simples, e não iria além das 5 ou 6 da tarde, conforme a produção do dia, o número e a urgência dos feitos conclusos.

Quiçá fizesse algum serão ou me estendesse no trabalho num ou noutro final de semana de chuva, justamente para me permitir alguma folga em “dia útil”.

Os órgãos correicionais acompanhariam (cobrariam) minha produção.

Eu poderia atender os advogados pelo próprio computador, ou pessoalmente, com horário previamente agendado.

X – Um amigo juiz me contou ontem que a sua irmã é gerente de uma multinacional nos EUA; trabalha há 15 anos em casa; vez ou outra tem de viajar e comparecer à sede da empresa; de resto, faz tudo pelo computador.

Outro juiz aqui de Joinville me falou que a Justiça Federal recentemente autorizou uma servidora (que devia acompanhar o cônjuge nomeado adido em Paris) a trabalhar por lá mesmo, já que o processo é eletrônico e os atos de sua atribuição podem ser praticados em qualquer computador do mundo.

Soube que os procuradores federais, por causa do processo digital, já não têm mais gabinetes; trabalham de casa, sítios, chácaras, na praia, etc.

XI – Taí, gostei desse tal de  “home office”. Num cenário tão negativo para a magistratura, enfim achei uma ideia pra me animar pro futuro, oxalá não muito distante.

 

Blogs da Folha

Categorias

Sites relacionados

Publicidade
Publicidade
Publicidade