O salão de festas dos marginais

Por Frederico Vasconcelos

Sob o título “A Reconstrução do Brasil“, o artigo a seguir é de autoria do desembargador Edison Vicentini Barroso, do Tribunal de Justiça de São Paulo. Ele assina o texto como “magistrado e cidadão brasileiro”.

 

Difícil a vida neste País, para as pessoas de bem. Enquanto a corrupção impera, sem freio, à vista de todos, a sociedade geme sob a mão implacável da criminalidade. E o que fazem os políticos, a quem cumpre ditar as regras? Impassíveis, quase indiferentes, deixam o desastre se estabelecer.

Leis frouxas, feitas de propósito para favorecer a impunidade, tornam calamitosa a vida no dia-a-dia. O homem de bem sai de casa, sem saber se volta. Sua vida, para os poderosos de plantão, nada vale. Se valesse, esses tais “representantes do povo” (congressistas) se preocupariam, de verdade e emergencialmente, em mudar as leis existentes, adequando-as aos reais anseios sociais.

Na verdade, é questão de preservação da própria sociedade brasileira, cansada da exploração de bandidos do colarinho branco. Porém, o povo, pobre de cultura e educação, submete-se, sem saber como reagir. Enquanto a bandidagem age, certa de que as tais leis os beneficiam, as vítimas e suas famílias choram, suplicando aos céus algo mais que a boa vontade de quem pode e deve mudar a situação.

País do jeitinho, de impostos altíssimos e retorno social praticamente zero, em que se multiplicam os desvios de dinheiro e o poder se alimenta da miséria da população (massa de manobra dos delinquentes de variada espécie), enxameiam os populistas, demagogos de plantão, sobretudo nos postos mais altos da nação, estrategicamente colocados para que nada mude, exceto a intensidade da dor e do choro do povo brasileiro.

No Brasil, de cadeias e penitenciárias sem estrutura capaz de ressocializar o preso, o criminoso mal entra na delegacia e sai, premiado pela omissão dum governo há muito distante do clamor popular.

Neste País, em que o jovem entre dezesseis e dezessete anos violenta, tortura e mata, sem que seja efetivamente punido; em que a voz maciça das ruas, no sentido de que se lho puna, sequer é ouvida nos palácios de Brasília; em que a democracia é simples figura discursiva, pois que ao voto se impõe e não faculta; em que, vezes não raras, a mesma lei atua de maneira diferente, dependendo daquele do qual se trate; em que, enfim, se blindam pessoas sabidamente culpadas, em prejuízo de suas milhões de vítimas, o parecer honesto tem muito mais valor que o ser honesto e a hipocrisia ganha foros de cidadania, solapando pela base a verdade das coisas que se querem ocultar.

Este é o lugar onde se vendem sonhos e se plantam pesadelos; onde o professor, instrumento da educação dum povo, não é devidamente valorizado, no estímulo contínuo da escravização das mentes; onde se espolia, furta e rouba, passando-se a idéia de que é assim que se cresce socialmente; onde, muitas vezes, o vulgo (o comum das pessoas) pensa em crescer para também espoliar, furtar e roubar.

Triste quadro, este nosso, em que o mau caráter, travestido de bom homem, vira exemplo numa sociedade tão necessitada de efetivos bons exemplos. Infeliz da sociedade onde o mérito individual nada vale, superado pelos trampolins das indicações espúrias, ao aconchego dos “companheiros” do Poder.

A panela de pressão está ligada, com a válvula no ponto máximo de resistência. E há indicativos do chamado estouro popular, pois que tudo tem limite. O costume de se jogar as coisas para debaixo do tapete tem de parar. Tempo virá em que alguém removerá o tapete e a enormidade de podridões, cometidas às ocultas e maquiadas pelo discurso bem posto do conhecido populismo, explodirão, a mostrar a tragédia brasileira, fruto do desmando de seguidos “desgovernos”, que, sob a capa da ovelha, escondem lobos vorazes, a se nutrirem, principalmente, da esperança do povo deste País.

É preciso que a população acorde, que os homens de bem se unam e que algo de fato se faça, sob pena de o caos mais se estabelecer, de forma a inviabilizar, de vez, a vida brasileira – hoje, já abatida pela falta de vergonha dos administradores de nossos destinos.

Indispensável mudança visceral, de raiz, que substitua o mal pelo bem, pelo voto consciente daqueles que, já tendo consciência disso tudo, encontrem força na coragem moral de dar sua contribuição a bem de todos. Do contrário, o País continuará como o paraíso da impunidade e o salão de festas dos marginais, que, de alto a baixo na escala social, se fartam da ignorância popular e da omissão sistemática daqueles que têm a obrigação e o poder de reagir. Força Brasil, rumo aos tempos novos da renovação das mentes e da verdadeira democracia da ética e da decência.