Bússola quebrada ou mal aparelhada

Por Frederico Vasconcelos

Sob o título “À deriva”, o artigo a seguir é de autoria de Edison Vicentini Barroso, desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo.

 

“Não há nada oculto que não venha a ser revelado, e nada escondido que não venha a ser conhecido e trazido à luz”. Isso foi dito há mais de dois mil (2.000) anos, por alguém chamado Jesus.

De fato, das pequenas às grandes coisas, nada fica sempre oculto; a seu tempo, tudo vem a público, tornando-se de conhecimento geral. O Brasil é patrimônio de todos os brasileiros, e não de alguns.

Potencialmente pujante, porque País continental, no oceano das nações, assemelha-se a um transatlântico (grande navio), que a todos nós conduz. Todavia, de certo tempo para cá, tem sido apequenado pelas ações de seus timoneiros (capitães), assemelhando-se, por vezes não raras, a barco pequeno, de estrutura frágil.

E no mar de ondas revoltas e de obstáculos a transpor, existem sinais de que a embarcação brasileira faz água, com reais perspectivas de naufrágio iminente. Todo navio busca um porto seguro, procurando evitar desvios de rota que o impeçam de nele chegar. Todo homem sonha com uma vida melhor, fugindo às agruras de ações desacertadas que comprometam a realização desse sonho.

Pelo voto, de tempos em tempos, temos a oportunidade renovada de fortalecer nosso transporte (o Brasil) e concretizar nossos sonhos (a vida melhor), ou enfraquecê-lo, impedindo essa concretização.

O ser votante é o passageiro, o ser votado é o timoneiro. Aquele, deste espera sempre o melhor, a bem de todos. Porém, quando o condutor da barca se deixa seduzir por interesses outros, que não os da própria embarcação, acende-se luz de alerta, capaz de despertar o passageiro que dorme. É fato: da árvore se conhece por seus frutos; do homem, por suas atitudes.

Na vida, tudo tem limite – até o sono secular duma população distanciada da luz do esclarecimento das coisas que a rodeiam. Na barca Brasil, há quem já tenha despertado, como há quem durma (inda maioria), desavisados e indiferentes ao rumo dado à sua embarcação.

É preciso acordar, pois, cada um de nós, para a verdadeira situação do barco Brasil. É preciso despertar da apatia que nos tem caracterizado, capaz, até, de embaraçar nossa cidadania.

Estamos vivenciando um retrocesso, entregues à ilusão duma embarcação segura, rumo a tempos felizes, aqueles dos nossos mais belos sonhos. De se convir que à nossa volta há prenúncio de tempestade, das grandes, capaz de comprometer nossos destinos e corporificar nossos pesadelos.

Era de se esperar, da atual condutora dos destinos da Nação, ao menos que: antes de qualquer coisa, sempre pensasse nos interesses do Brasil; o fizesse com boa-fé, transparência e competência. Isso, no contexto dum bom capitão de navio e no uso de bússola confiável que o pudesse levar a porto seguro.

Mas, o que temos visto? Citemos, para exemplificar, dois fatos recentes – a par doutros tantos, também suscetíveis de lembrança. Ninguém duvida das necessidades reais do povo brasileiro; tantas e de tão variada natureza, que, aqui, não cabe declinar. Apesar disso, a presidente do Brasil (sua timoneira), fechando os olhos e tapando os ouvidos às múltiplas carências de seu povo, utilizando-se dos altos impostos hauridos dos hercúleos esforços do trabalhador brasileiro, sem nada que o justificasse, enviou a Cuba (outro navio), para construção dum porto, cerca de um bilhão de reais, enquanto, aqui, o de Santos, maior escoadouro da produção nacional, soçobra em meio a dificuldades de toda ordem.

E o que a teria motivado? Definitivamente, não os interesses desta Nação, do barco Brasil. Justo Cuba, de população atormentada por ditadura de cerca de cinquenta e cinco (55) anos, que só produz açúcar, charutos, pessoas descontentes (que o digam os médicos de lá importados) e desafetos.

Nada demonstra que um investimento deste porte (milionário) ajude a economia brasileira. O Brasil, todos sabem, é potência agrícola, mas, com portos tão defasados, a coisa não deslancha (questão de infraestrutura). A previsão para este ano (2014) é de que cerca de vinte por cento (20%) da produção agrícola total se perca por causa de problemas de transporte e exportação. Então, não seria melhor investir aqui mesmo?

Segundo informações da imprensa, o BNDES financia obras em cerca de quinze (15) países, mas apenas a do porto de Cuba foi considerada secreta. Qual a razão? Por fim, os irmãos “Castro” (Cuba, em última instância) têm sido conhecidos por seus calotes noutros países, que, qual o Brasil, inadvertidamente, os auxiliaram (o México e o Japão são dois exemplos).

O dinheiro público (do povo) há de ser bem empregado. Lembremo-nos, uma vez mais: o Brasil é de todos!

Agora, falemos do fato mais recente. Ou melhor, da notícia mais recente, embora relativa a fato preexistente. Antes de ser presidente do Brasil, então ministra da Casa Civil (na gestão Lula) e presidente do Conselho de Administração da Petrobrás, Dilma Rousseff autorizou e avalizou a compra duma refinaria de petróleo norte-americana, o que, depois se soube, ocasionou prejuízo biliardário àquela estatal (portanto ao Brasil), de cerca dum bilhão e duzentos milhões de dólares (mais ou menos dois bilhões e oitocentos milhões de reais). Péssimo o negócio, pois, sufragado à unanimidade pelo tal Conselho por ela presidido.

E qual foi, só agora, a justificativa da Presidente? Referiu-se a indução em erro por informações incompletas de pareceres técnicos da diretoria internacional da empresa. Se soubesse da verdade da situação, disse ela, não teria assentido no negócio.

Complementação da matéria alude à suposta ignorância de cláusulas do contrato, então prejudiciais à Petrobrás. Ora, a um Conselho especializado na matéria, gerido por pessoas efetivamente competentes, decerto, não escaparia questão tão banal. Pior: José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobrás, reportando-se à cláusula chamada Put Option (que obriga uma das partes a comprar ações da outra em caso de desacordo comercial) e base da celeuma, disse-a praxe na rotina jurídica da empresa. Noutras palavras, é cláusula por demais conhecida no setor. Com isso, desdisse o que por aquela dito.

Assim, espantosa a justificativa da Presidente, a depor, no mínimo (para se dizer pouco), contra atributos de competência e austeridade, tidos por consubstanciadores, até então, de sua personalidade – abstração feita, ainda, ao comprometimento da indispensável transparência na administração da coisa pública.

A este passo, vê-se, procura-se um bode expiatório, que enfraqueça a percepção clara da inequívoca responsabilidade da ex-presidente do Conselho da Petrobrás e atual Presidente do Brasil. Nesse compasso, de duas uma: se nada mais grave aconteceu (coisa que até o Ministério Público está investigando), o episódio, a exemplo do de Cuba, revela flagrante ineficiência na condução das coisas de interesse do País. E, como em toda empresa que se preze, o gerente há de saber o que faz, ser bom naquilo que faz, sob pena de ser trocado.

Decididamente, quando pouco, avultou da falta de competência para gerir coisas de interesse do barco Brasil, de seus milhões de passageiros, justamente aflitos pela percepção iniludível de que a bússola da capitã está quebrada ou mal aparelhada, de que o potencial transatlântico foi reduzido à condição de barco menor e, pior, que, no torvelinho do tempo, a tempestade ruge lá fora sem a garantia da condução segura e da mão forte de quem de fato possa levar o brasileiro ao porto seguro da realização definitiva de seus sonhos.

Diante disso tudo, dizemos nós: Acorda, Brasil! Rumo à nau da esperança de tantos corações, hoje à deriva, no mar revolto das desilusões e do desalento. Desperta, Brasil! Rumo ao porto seguro dos sonhos realizáveis e dos princípios inquebrantáveis. Pois lá fora o vento grita, a água se agita e o futuro descortina novos portos, à luz da direção segura da bússola verdadeiramente redentora.