O falso discurso democrático

Por Frederico Vasconcelos

Sob o título “Uma reflexão intolerante ou intolerável”, o artigo a seguir é de autoria de Alfredo Attié, Juiz de Direito do Tribunal de Justiça de São Paulo.

 

A pergunta que faço é: deve-se tolerar o discurso totalitário? O discurso totalitário é uma prática totalitária. E a resposta à pergunta deve ser dada refletindo sobre a realidade que nos cerca e de que fazemos parte. Entre nós, a banalidade do discurso totalitário corresponde à banalidade de nosso discurso democrático. Não experimentamos a democracia até suas últimas consequências, porque achamos que nossa democracia deve ser moderada, pacífica, racional, despida de paixões. Nosso discurso democrático é falso. Não acreditamos nos dois elementos que compõem a democracia. Descremos do povo e descremos do poder do povo. O povo para nós não é capaz.

Quando o povo age, achamos que devemos reprimir sua ação, censurá-lo. Devemos ralhar com o povo porque achamos que o povo se comportou mal. Pior, não discernimos que esse povo único e incapaz não existe. Quando vamos construir nosso discurso democrático, recorremos aos discursos de outros mundos, falamos da Alemanha, dos Estados Unidos, da Inglaterra, da França. Desprezamos o nosso povo, desprezamos a nós mesmos. Achamos que somos superiores a nosso povo. Queremos ser aristocratas e somos apenas os barões da ralé.

A isso corresponde a banalidade de nosso discurso totalitário. Achamos que ninguém sofre com a censura e a repressão do pensamento. Achamos que um grupo deve tomar conta de todos e ensinar-lhes o que devem ou não devem pensar ou fazer. Achamos a violência válida, desde que seja exercida pelos poucos sobre todos. Achamos que a tortura e o assassinato dos dissidentes são procedimentos válidos e necessários. Achamos que o povo precisa apanhar para aprender. Ao mesmo tempo, achamos que nosso totalitarismo não foi e não tem sido um totalitarismo total, mas parcial e moderado. Somos povo bom e pacífico, batemos pouco, torturamos pouco, matamos pouco… Nosso totalitarismo é contido.

Por isso somos conhecidos como tolerantes. Nossa tolerância é banal.

Confundimos democracia com totalitarismo. Nossa democracia se torna idêntica a nosso totalitarismo. Por que não sabemos o que seria uma coisa ou outra? Não, porque em nossa tolerância, recusamos olhar, recusamos ver, recusamos enxergar o que se passa a nosso redor. Fingimos que somos grandes teóricos iluminados, pregadores de nossa sabedoria. Adotamos com facilidade qualquer teoriazinha ou doutrinazinha de outros mundos, traduzimos correndo, disciplinados pelos mestres de outros mundos. Isso porque não temos compromisso algum com tais ideias e com a nossa realidade.

Nossa realidade pesa, por isso adotamos a leveza das ideias dos outros mundos. Lá, nos outros mundos, somos disciplinados e atentos alunos. Aqui, somos professores e reitores. Empregamos os termos mais genéricos e abstratos e achamos que isso é direito, é filosofia, é história, etc.

Como estou fazendo a crítica dessas banalidades, afirmo que não devemos mais ser tolerantes com o discurso totalitário.

Um exemplozinho banal serve. Refletindo o pensamento de muitos e uma tradição de nossas faculdades de “direito”, um professor registra em cartório (os cartórios correspondem a mais uma de nossas tradições imunes a qualquer debate e a qualquer crítica), uma declaração de amor à ditadura, que é, em verdade, um pedido de nova intervenção da “boa sociedade” contra a “febre rubra”. Ou seja, ele pede o fim da esquerda, a sua extinção, pois a esquerda seria o equivalente a uma doença, e essa doença, segundo a comparação ou assimilação que faz, equivaleria à “febre negra”. Ele acha que os que pensam diferente dele representariam uma peste e que essa peste tem de ser exterminada. Pronto, é o discurso totalitário absolutamente claro.

Minha resposta é que não devemos ser tolerantes com tal discurso, que é uma prática totalitária, que incita abertamente, publicamente, ao ódio. Esse discurso disfarça, à moda totalitária, o ódio em amor. Amor pelo quê? Pela ditadura, regime por excelência da intolerância, regime da morte, da tortura, do sequestro, do estupro, da censura, da supressão das liberdades. Mas ele diz claramente que o outro deve ser exterminado, a “peste rubra” dizimada…

Tolerar tal discurso na democracia é dizer que não se viu “nada de ruim” nele, nada de estranho, apenas exercício da liberdade, da democracia.

Não sabendo o que é democracia, achamos que tudo é democracia, mesmo o discurso totalitário. Portanto nada é democracia. E assim podemos saltar do discurso totalitário a afirmar que a democracia é totalitária. Que não temos, hoje, democracia. Em conclusão, podemos ter de volta o totalitarismo, desde que seja o “bom” totalitarismo, aquele que imponha as nossas ideias, que precisam ser impostas violentamente ao povo ignorante, que se deixa iludir pelo… discurso democrático… que seria mentiroso. Segundo essa lógica, a verdade estaria com o discurso totalitário e a mentira com o discurso democrático.

Enfim, nossa tolerância, proclamada em prosa e verso, nossa flexibilidade nos levam ao oposto do que pretendemos que pudessem significar.

E esse oposto constitui o que somos: intolerantes com a diversidade, porque acreditamos que o ditador pode dizer o que deseja.

Se observarmos bem, notaremos que o ditador de que gostamos é o ditador que está do nosso lado, ou melhor, está dentro de nós, aquele que diz o que gostamos de dizer e de ouvir.

Já o ditador diferente é intolerável e merece ser submetido à nossa ditadura.

Se somos tolerantes com o discurso – e a prática – totalitários, mostramos o que somos: intolerantes.