Bloco da Saudade pede passagem

Por Frederico Vasconcelos

Carnaval de Olinda

O artigo sobre o Carnaval de Pernambuco publicado na Folha por Silvio Meira –batuqueiro do Maracatu “A Cabra Alada” e professor associado da FGV Direito Rio– abre alas para o blog deixar de lado os assuntos de interesse dos operadores do Direito e tratar da folia pernambucana.

Segundo Meira, “Pernambuco tem uma diversidade cultural de carnaval √ļnica. Que leva uma vida inteira pra entender“.

O Carnaval pernambucano ainda é um mistério, mesmo para este folião aposentado que acompanhou a pé, durante boa parte da vida, os desfiles de blocos, maracatus, troças, escolas de samba, ursos e bois nas ruas de Recife e ladeiras de Olinda.

Como escrevi em 1997 na Folha (*), “tenho boas lembran√ßas dos desfiles de rua e da rivalidade -ainda presente- entre a Pitombeira dos Quatro Cantos e o bloco dos Elefantes (era adepto do primeiro, mas gostava do hino do rival, que ouvi, pela primeira vez, executado pelo autor, Cl√≠dio Nigro, no velho piano alem√£o da minha casa).

O desafio era ‘tirar’ o bloco na sede, ‘pedir passagem’, pulando nas ruas estreitas e √≠ngremes, e aguentar o repuxo at√© o ‘regressar’. Era preciso f√īlego redobrado, ativado pela mistura pr√©via de ‘bate-bate com doce’ (batida de frutas, a√ß√ļcar e muita cacha√ßa). √Č quando a popula√ß√£o est√° com a ‘goitanga’ (com o diabo no corpo, em bom ‘pernambuqu√™s’).”

Como poderia esquecer a cena do “Homem da Meia-Noite”, boneco gigantesco, fazendo rever√™ncia para meus pais na janela de casa em Olinda?

Ou os acordes de “Gostosinho” e “Gostos√£o”, frevos de Nelson Ferreira, elegante maestro que gentilmente cedeu o piano no Clube Portugu√™s para o ent√£o jovem e atrevido aprendiz de pianista dedilhar algumas m√ļsicas?

Somente em Pernambuco, arrisco, √© poss√≠vel desfilar num √ļnico e belo frevo-can√ß√£o [confiram na internet] os nomes de tantos blocos de rua, como fez Edgar Moraes na composi√ß√£o “Valores do Passado”:

 

Bloco das Flores, Andaluzas, Cartomantes
Camponeses, Ap√īis Fum
e o Bloco Um Dia Só

Os Cora√ß√Ķes Futuristas, Bobos em Folia
Pirilampos de Tejipió

A Flor da Magnólia
Lira do Charmion, Sem Rival

Jacarandá, a Madeira da Fé
Cris√Ęntemos, Se Tem Bote e
Um Dia de Carnaval

Pavão Dourado, Camelo de Ouro e Bebé

Os Queridos Batutas da Boa Vista
E os Turunas de São José

Príncipe dos Príncipes brilhou
Lira da Noite também vibrou
E o Bloco da Saudade, assim recorda tudo que passou.

 

Como diria o poeta e cronista Antonio Maria, na vers√£o genial de Maria Beth√Ęnia, “quando eu me lembro/ o Recife est√° longe/ a saudade √© t√£o grande/ eu at√© me embara√ßo”…

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(*) http://blogdofred.folha.blog.uol.com.br/arch2008-01-27_2008-02-02.html