Juízes e o objeto de desejo

Por Frederico Vasconcelos

Porsche de Eike

Alguma coisa parece fora do lugar quando um milionário expõe um automóvel de luxo como peça de decoração na sala de visitas de sua residência. Mas a extravagância, no caso, é questão de foro íntimo na esfera privada.

O mesmo não ocorre quando um magistrado estaciona na garagem de seu prédio o Porsche Cayenne do empresário Eike Batista, veículo apreendido de um réu em processo sob sua responsabilidade.

Segundo o juiz Flávio Roberto de Souza, do Rio de Janeiro, essa seria uma “situação normal”, pois “o carro ficou guardado em local seguro, longe de ser suscetível a qualquer dano”.

O maior dano já foi causado. A ex-corregedora Eliana Calmon diz que “a conduta do juiz é absurda e desmoraliza o Poder Judiciário”, como registrou o jornalista Bernardo Mello Franco nesta quarta-feira (25) em sua coluna na Folha.

Nessa seara, todo cuidado na direção é pouco.

Advogados e promotores, por exemplo, estranharam quando o Tribunal de Justiça de São Paulo colocou à disposição do decano da Corte um Audi repassado ao tribunal paulista pela Receita Federal. Ou quando a presidência do Tribunal Regional Federal da 3ª Região, em São Paulo, mantinha um Volvo S/80 –confiscado pela Receita e entregue ao tribunal, mesmo sabendo-se que o presidente já dispunha de um Toyota Corolla.