Cautela tardia dos bancos contra os esquemas de lavagem de dinheiro

Por Frederico Vasconcelos

Lavagem de dinheiro- esquema

Reportagem publicada no “Valor Econômico” nesta sexta-feira (27), sob o título “Bancos fecham contas onde seja possível lavar dinheiro“, revela que os bancos brasileiros se mobilizam para implementar mudanças drásticas em seus controles internos responsáveis por mapear e evitar operações de lavagem de dinheiro.

Segundo o texto das jornalistas Vanessa Adachi e Carolina Mandl, “o tema entrou no radar muito antes de a Operação Lava Jato jogar gasolina no assunto. As leis de lavagem de dinheiro e anticorrupção aumentam o risco de responsabilização dos bancos em caso de crimes de lavagem”.

A julgar por fatos já divulgados neste Blog, a providência oficial e a cautela dos bancos parecem chegar com bastante atraso.

A Lava Jato tem origem no “laranjal” descoberto lá atrás nas operações do Banestado. Por sua vez, os “mensalões” –petista e tucano– confirmaram que o Banco Rural manteve a prática de usar “contas fantasmas”, distorção identificada lá atrás nas investigações envolvendo as malfeitorias de PC Farias, tesoureiro da campanha de Collor.

No Banestado, doleiros –entre os quais Alberto Yousseff– faziam depósitos milionários em contas de laranjas. Um desempregado, por exemplo, depositou R$ 15 milhões. A abertura dessas contas tinha a concordância dos gerentes das agências.

Em sua defesa, Benedito Barbosa Neto, ex-gerente do Banestado, afirmou à Folha que o Banco Central foi “permissivo”. “O BC fez mudanças na lei, permitindo que qualquer pessoa fizesse depósitos em contas CC5 sem exigir comprovação da capacidade financeira”, afirma.

“O BC poderia bloquear as operações a qualquer momento, mas não fez isso”, disse o ex-gerente do Banestado.

Em novembro de 1999, reportagem do editor deste Blog, publicada na Folha, mostrou como o Conselho de Recursos do Sistema Financeiro, o chamado “Conselhinho”, espécie de junta de conciliação formada por representantes do governo e de entidades do mercado, foi benevolente ao julgar recursos de punições aplicadas pelo BC contra bancos e dirigentes financeiros.

A reportagem revelou que “foram praticamente absolvidos pelo ‘conselhinho’ dirigentes do Banco Rural, instituição envolvida na criação de ‘contas fantasmas’ no escândalo PC Farias”.

O então representante da Febraban no “Conselhinho” votou pelo arquivamento num caso do Banco Rural em que houve “a movimentação de vultosas quantias, inclusive em espécie e fora do horário normal de funcionamento dos bancos”.

Para o “conselhinho”, não houve dolo.

A inabilitação de quatro administradores do banco, punição aplicada pelo BC, virou multas inexpressivas.