Bravatas e comparações esdrúxulas

Por Frederico Vasconcelos

Sob o título “Lula e os Judeus”, o artigo a seguir é de autoria de Hugo Otávio Tavares Vilela, juiz federal da 1ª Região. (*)

 

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Na sexta-feira passada (24), na ocasião da posse do Sindicato dos Bancários do ABC, o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva comparou as críticas que o PT e a esquerda vêm sofrendo com a perseguição feita aos judeus pelos nazistas.

O primeiro aspecto que chama a atenção é a disparidade entre o que se comparou. Os judeus são um povo que existe há milhares de anos, unido por religião, fé e etnia. Os petistas são um grupo político fundado na década de 1970, que assumiu o controle do Brasil cerca de 30 anos depois. O que os une são, além de princípios ideológicos que a história revelou serem rarefeitos, e um senso patológico de autopreservação. Cada vez mais se confirma, que o que os une são interesses políticos e econômicos discutíveis, blindados por um ferrenho instinto de lealdade.

O segundo aspecto é a comparação esdrúxula entre o que um grupo sofreu e aquilo por que o segundo vem passando. Os judeus viveram espalhados por diversos países por cerca de 1800 anos. Na quase totalidade desses países, o preço que se cobrava dos judeus pelo abrigo em suas terras era a aceitação de regras humilhantes. Judeus não podiam possuir terra, tinham de andar com sinais que os identificassem, não podiam casar com não-judias e tinham de viver em guetos, geralmente perto da área de escoamento de esgoto das cidades. Eram proibidos de assumir cargos públicos ou mesmo de ter lojas em centros comerciais. Exerciam o comércio como ambulantes ou em suas residências. Isso tudo com base em sua raça, cor dos olhos e cabelos, sua religião. Eram, estes sim, perseguidos, pois sem indício de que tivessem feito algo errado, eram caçados pelo mero fato de existirem, de serem o que eram.

Os petistas, até onde se acompanha pela imprensa, têm sido investigados não por sua crença política ou características físicas, mas por provas e indícios contundentes de que se envolveram em transações de bilhões de dólares com prejuízo direto para o povo brasileiro. Outra diferença é que os petistas vêm sendo perquiridos por instituições legítimas e idôneas –-Polícia e Ministério Público Federal– e não por grupos paramilitares ou reis saqueadores. Por último, as investigações que os têm por suspeitos se baseiam em leis aprovadas pelo parlamento de um país democrático, e que valem para todos, não só para um grupo minoritário. Assim, não parece correto afirmar que estão sendo perseguidas pessoas às quais se garante o devido processo legal e a que se aplicam leis que valem para todos. Investigados sim, perseguidos não. Aquele que afirma que não sequer ser investigando não está exigindo seus direitos ou exercendo sua cidadania. Está exigindo que tratem como divindade.

Existem, sim, muitas semelhanças entre o povo judeu e o brasileiro. Tendo passado a maior parte de sua história sob grandes adversidades, o brasileiro e o judeu são viradores. Se uma porta se fecha aqui, correm a bater em outra; e em outra. Se trabalham em um ramo e não dá certo, logo estão em outro. Improvisam, tentam, insistem. São lutadores. Principalmente, têm uma capacidade quase sobrenatural de ter esperança, ainda que não haja no horizonte sinal algum que a alimente. São dois povos que acreditam. O hino de Israel se chama “A Esperança”. O do Brasil fala em “sonho intenso” e de “amor e de esperança”.

Por tudo isso, conclui-se que a infeliz declaração do presidente Luís Inácio Lula da Silva foi mais uma de suas “bravatas” (termo usado e popularizado por ele próprio). Suas palavras devem ser vistas como parte do esforço desesperado que o Partido dos Trabalhadores e o governo têm empreendido para desacreditar os esforços legítimos de instituições que não têm feito nada mais que cumprir seu papel, chamando-os à responsabilidade. Pessoas e instituições que agem contrariamente à lei devem responder por isso sendo judeus, cristãos ou muçulmanos, homens ou mulheres, ricos ou pobres. Quem for inocente, deve ser inocentado. Mas países em que existem castas acima do bem e do mal não podem ser chamados de democracias; nem de repúblicas.

Roga-se ao ex-presidente Lula que tenha um mínimo de senso ao premeditar suas frases de efeito. Em relação aos judeus, não é preciso que os admire ou mesmo que goste deles. Entretanto, que tenha em mente que, após tantos séculos, esse povo merece o respeito.

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(*) O autor é professor da Escola Superior da Magistratura Federal da 1ª Região (ESMAF). Formador de magistrados pela Escola Nacional de Aperfeiçomento e Formação de Magistrados (ENFAM).