Nalini critica o “mundo da boataria”

Por Frederico Vasconcelos

Presidente do TJ-SP reprova pessoas que ‘disseminam boatos’ e lançam ‘alusões depreciativas contra colegas’.

Sob o título “Fábrica de boatos“, o artigo a seguir é de autoria de José Renato Nalini, presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo.

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Nalini e boatariaComo somos pródigos em explorar notas, informes, dados, simples comentários e transformá-los em intensa boataria! Basta surgir um aceno de mudança em algo estabelecido e logo se articulam os que ganhariam mais se prosseguissem nas funções para as quais são remunerados, mas que preferem investir na disseminação de boatos.

O interessante é que as boas novas não se propagam. Logo morrem assim que divulgadas. O que ganha espaço e consistência é a fofoca maldosa, na maledicência que é o grande esporte dos que têm tempo e não encontram melhor fórmula de preenchê-lo.

Os semeadores de notícias aterradoras aparentemente são sempre os mesmos. Tornam-se verdadeiros profissionais da multiplicação e intensificação daquilo que pode assustar, comprometer ou constranger.

Verdade que tudo isso vai parar onde merece. Surge a fagulha, espalha-se o fogo, exaurem-se as chamas e o incêndio vira cinzas.

O resultado é o olvido, o ostracismo, página virada. Mas enquanto o boato não morre, ele apavora os pessimistas. Estes não se preocupam com a formulação de propostas inovadoras, de criatividade, de engenhosidade e de empreendedorismo. Preferem o passatempo de fofocar, de espalhar inverdades ou meias verdades.

É muito triste constatar que pessoas escolarizadas, cultas, eruditas até, se dediquem a esse esporte nefasto. Quão mais úteis seriam os seus esforços voltados à edificação da harmonia, do convívio harmônico, em lugar de denegrirem ou lançarem alusões depreciativas contra colegas.

O mundo poderia ser bem melhor se as pessoas deixassem da morbidez, da crueldade, da malícia, da maledicência e passassem a confiar umas nas outras, sem prejuízo de um confronto pessoal. Pois a pior coisa que ocorre nesse mundo da boataria, é que ele se desenvolve na ambiguidade, na obscuridade, longe do interessado. Este, só por acaso toma conhecimento do que se fala dele, sempre longe dele. Quem é que teria coragem de inquiri-lo em pessoa? Franqueza, sinceridade, honestidade e coragem não estão em alta em certos níveis de convívio.