Um estranho na Petrobras

Por Frederico Vasconcelos

Armando Toledo e Aldemir Bendine

Os desencontros no comando da Petrobras desde a posse de Aldemir Bendine, ex-presidente do Banco do Brasil, emergem de forma surpreendente na reportagem de Malu Gaspar, sob o t√≠tulo “√Ä deriva”, publicada na revista “Piau√≠“, edi√ß√£o de novembro.

“Em meio aos estranhamentos da corpora√ß√£o com o presidente, desperta curiosidade a figura de um senhor de ar bonach√£o, corpulento e meio calvo, com os cabelos que lhe restam sempre penteados para tr√°s com gel: √© Armando S√©rgio de Toledo, de 60 anos, desembargador aposentado do Tribunal de Justi√ßa de S√£o Paulo. Portando um crach√° de consultor da presid√™ncia, ele realiza reuni√Ķes com fornecedores, faz encontros com autoridades e cuida da interlocu√ß√£o com o Congresso“, revela o texto.

Como este Blog publicou, em mar√ßo √ļltimo Toledo antecipou em onze anos sua aposentadoria depois da revela√ß√£o de que retardou em seu gabinete, por mais de tr√™s anos, uma a√ß√£o penal contra o ex-presidente da Assembleia Legislativa Barros Munhoz (PSDB) –denunciado por suspeita de desviar recursos p√ļblicos quando foi prefeito de Itapira. Toledo √© suspeito de postergar a tramita√ß√£o do processo para beneficiar o parlamentar tucano com a prescri√ß√£o.

Dias depois, Toledo circulou no tribunal, distribuindo o cart√£o de visitas como consultor do presidente da Petrobras, com quem intermediara contatos do Banco do Brasil com o TJ-SP. Consultada na ocasi√£o, a Petrobras informou que Toledo prestaria assessoria √† presid√™ncia “em mat√©rias relacionadas ao seu hist√≥rico profissional e acad√™mico na √°rea jur√≠dica“.

Eis alguns exemplos da assessoria que Toledo vem prestando, segundo a revista “Piau√≠“:

– Ele realiza reuni√Ķes com fornecedores, faz encontros com autoridades e cuida da interlocu√ß√£o com o Congresso.

– No final de julho, passou a falar pela Petrobras tamb√©m nas reuni√Ķes de um grupo de deputados que discutia a flexibiliza√ß√£o da lei anticorrup√ß√£o, para que fornecedores da estatal envolvidos na Opera√ß√£o Lava Jato pudessem voltar a trabalhar para a companhia.

– Apesar do mal-estar interno, Toledo continua firme. Na terceira semana de outubro, podia ser visto em Bras√≠lia, em conversa com deputados e senadores, a quem costuma chamar de “irm√£o” e “meu querido”. Dentre as prioridades daquela semana, uma era acompanhar o desfecho da CPI da Petrobras. Outra, adiar ao m√°ximo a ida de Bendine √† Comiss√£o de Assuntos Econ√īmicos do Senado para falar sobre a crise na estatal. O √™xito foi total.

РToledo só encontrou freio quando solicitou acesso a documentos que seriam analisados numa reunião do comitê estratégico da Petrobras para deliberar a respeito de uma nova campanha publicitária. Os funcionários a quem o desembargador pediu a papelada se queixaram da intromissão aos conselheiros que integram o comitê. Os documentos não foram fornecidos.

Malu Gaspar revela que, duas semanas depois de se aposentar para ir trabalhar com Bendine, Toledo “pediu ao Conselho Nacional de Justi√ßa que arquivasse o seu caso [a reclama√ß√£o disciplinar pela suspeita retardar a a√ß√£o penal para beneficiar o deputado tucano], por n√£o ser mais membro efetivo do Judici√°rio”.

“O pedido n√£o foi acatado.”

“O relat√≥rio da ministra Nancy Andrighi est√° pronto para ser votado desde 30 de setembro de 2014. A decis√£o de coloc√°-lo em pauta cabe ao presidente do √≥rg√£o (e tamb√©m presidente do Supremo Tribunal Federal), Ricardo Lewandowski, amigo de Toledo desde que ambos integravam o tribunal paulista“, informa a “Piau√≠“.