Os personagens de dois mensalões

Por Frederico Vasconcelos

Condenação de Eduardo Azeredo (PSDB) confirma que, em 1998, os advogados de Itamar Franco (PMDB) já haviam antecipado os esquemas do mensalão petista.

 

Valerioduto mineiro

 

Na sentença que condenou o ex-governador mineiro Eduardo Azeredo (PSDB) a 20 anos de prisão pelo mensalão tucano –decisão da qual cabe recurso–, a juíza Melissa Pinheiro Costa Lage registra que o mensalão petista talvez pudesse ter sido evitado “se os fatos aqui tratados tivessem sido a fundo investigados quando da denúncia formalizada pela coligação adversária perante a Justiça Eleitoral”.

Ainda não foi suficientemente realçada a atuação dos advogados do então candidato Itamar Franco (PMDB-PST), que anteciparam os mecanismos que hoje são considerados o embrião do mensalão do PT.

Quando a imprensa ainda apurava fatos do mensalão petista, dez anos atrás, a assessoria de Itamar já conhecia os esquemas de repasses de dinheiro público e patrocínios fraudulentos por intermédio da SMP&B, agência de publicidade de Marcos Valério.

A releitura dos fatos mostra que alguns personagens transitaram nos dois “mensalões”.

O esquema do mensalão tucano veio à tona com a transferência de R$ 3 milhões de estatais mineiras à SMPB Comunicação em 1998, empresa de Marcos Valério, quando Azeredo disputou, sem sucesso, a reeleição ao governo de Minas Gerais.

Os autos do processo citam o desvio de recursos da Comig (empresa estatal de mineração) e da Copasa (empresa estatal de saneamento), a título de apoio, sem licitação, ao “Enduro da Independência”, em 1998.

Rogério Lanza Tolentino, condenado no mensalão petista, era advogado de Marcos Valério e da SMPB. Ambos também foram condenados no mensalão tucano.

Tolentino foi juiz do Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais, nomeado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. Foi denunciado por receber dinheiro do valerioduto durante a campanha de 1998. Como juiz eleitoral, Tolentino votou favoravelmente ao candidato Azeredo em decisões próximas a depósitos feitos em sua conta e na conta de sua mulher.

Até 20 dias antes da operação que gerou o mensalão tucano, o ex-senador Clésio Andrade (PL), então candidato a vice-governador na chapa de Azeredo, controlava a Holding Brasil, que detinha a maior parte do capital da SMPB. Para o Ministério Público Federal, a transferência das quotas da holding de Clésio Andrade foi simulação.

A título de comprovar que encerrara a sociedade com Valério antes da apuração do mensalão tucano, Clésio Andrade enviou documentos à CPI dos Correios, que antecedeu a CPI do mensalão petista.

O material foi remetido ao presidente da CPI, senador Delcídio do Amaral (PT).

Clésio Andrade foi vice-governador de Minas no governo Aécio Neves (PSDB). Difícil imaginar que o esquema denunciado pela coligação de Itamar Franco ganhasse manchetes em Minas Gerais.