Uma história de vida memorável

Por Frederico Vasconcelos

O texto a seguir é de autoria do Juiz de Direito Marcelo Semer, do Tribunal de Justiça de São Paulo. Foi publicado nesta sexta-feira (4) em sua página no Facebook.

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Escrevi essa resenha em 2010 para o belíssimo livro de Alexandra Szafir, que muito me emocionou. Garra e sensibilidade, ela teve a capacidade de nos emocionar. Obrigado, Alexandra.

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“Advogada comove com descasos do sistema criminal”

Um advogado de cadeira de rodas, incapaz de atender ao desembargador que, pela tradição, exige que ele faça de pé a sustentação oral do apelo. Um preso com processo já prescrito, esquecido nos escaninhos da Justiça. O cheiro fétido da prisão que impregna o corpo do réu que se descobre inocente.

É difícil saber o que comove mais, se são as histórias de descasos do sistema criminal que Alexandra Szafir narra ou se é o esforço incomum que ela teve de fazer para contá-las.

Alexandra é advogada criminal muito bem sucedida que, ao lado de seu trabalho em um conceituado escritório, passou anos fazendo serviços voluntários, cuidando de casos de presos em mutirões carcerários.

Da experiência deste trabalho, colecionou as histórias que conta em “desCasos” (Ed. Saraiva), lançado há alguns dias em São Paulo, como uma legítima lição de vida.

No meio de suas escritas, Alexandra foi acometida pela Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), perdendo paulatinamente o controle sobre seus membros e funções. Primeiro pés, depois, mãos. Enfim, fala e deglutição. Ao final, o livro foi escrito com ajuda de um software que reconhecia a posição de seu nariz, usado como mouse para um teclado virtual.

Difícil não lembrar do emocionante “O escafandro e a borboleta”, filme originado do livro homônimo de Jean-Dominique Bauby. O editor da revista Elle, vítima de um AVC, ficou sem qualquer outro movimento voluntário, à exceção do piscar do olho esquerdo. E com esse mínimo pulsar, “ditou” suas memórias.

Mas “desCasos” não deve servir como instrumento de piedade.

A autora não é sua personagem principal. Tampouco é indulgente ou tolerante em suas severas críticas, encaixadas nas dobras das crônicas que narra. O fio condutor é um brado contra o desrespeito e a desumanidade.

Seu olhar de advogada se reveste de uma indignação incontida com os descasos do sistema e não hesita em apontar para a inoperância ou indiferença alheias, que faz, no entanto, numa prosa fácil e convidativa.

Para um juiz como eu, que convivo diariamente com personagens similares aos seus Lady Laura, Luciano Capeta e Carnegundes, não deixa de ser constrangedor testemunhar a narração da crônica em que um colega atribui à falta de “casamento no papel” o ingresso do cidadão nas estatísticas criminais.

Ou perceber que um réu mal procurado no endereço de sua residência, tenha ficado tanto tempo ilegalmente preso e apenas receba do juiz a explicação de que isso é normal para quem mora em favela.

Há juízes soberbos, promotores insensíveis, advogados omissos. De tudo um pouco se encontra nos causos que ela nos conta de forma didática, permitindo aos leigos mergulhar, sem dificuldade, no horizonte penal.

Mas o sucesso de vários de seus recursos mostra, paradoxalmente, que o sistema também funciona e a busca de justiça jamais se mostra inútil. A perseverança sobra como principal aprendizado. Como ensina o desembargador Ranulfo de Melo Freire, perder o idealismo com a idade é falta de caráter.

Muitos podem dizer que a maioria dos excluídos de Alexandra mereceram as sanções que recebem, pelos males que infligiram a outros. É fato que pouco nos acostumamos a ouvir as vozes das vítimas, também elas excluídas dos processos travados mais como batalhas épicas entre promotores e advogados.

Mas o primeiro passo para respeitar a dor de quem sofreu com violações e se sente impotente, e a súplica de quem foi esquecido ou maltratado nos porões do sistema criminal, vítimas de diferentes injustiças, é aprender a ver por olhares alheios, que flagram o que muitas vezes os nossos próprios não são capazes de enxergar.

Sorte dos desvalidos que Alexandra se dignou a meter o nariz aonde não fora chamada.

E também de seus leitores, que puderam conhecer o tamanho da força de vontade desta militante que, para defender sua causa, fugiu ela mesma da prisão em que as armadilhas da vida lhe colocaram.