Lições de resistência e coragem de dois pastores

Por Frederico Vasconcelos

Dom Helder e Dom Paulo
Entrevistei dom Paulo Evaristo Arns uma única vez, em abril de 2005. Então com 83 anos, o arcebispo emérito de São Paulo se recuperava de um infarto e concedeu entrevista por telefone. “O médico restringiu muito as minhas atividades”, disse.

Não conhecia o cardeal. À secretária de dom Paulo –sempre paciente, diante da minha insistência em obter a entrevista– não omiti ser um homem de pouca fé e sem nenhuma ligação com os movimentos sociais da Igreja. Mas tinha uma referência valiosa, suponho: entrevistas que havia feito com dom Helder Câmara, no Recife [os dois se tratavam por “tio” e “sobrinho”, soube depois].

Na ocasião, discutia-se a sucessão de João Paulo 2º. Um dos cotados era o cardeal Joseph Ratzinger, a quem se atribui, como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, a desmontagem da arquidiocese de Olinda e Recife e o fatiamento da arquidiocese de São Paulo.

O objetivo foi esvaziar a liderança, respectivamente, de dom Helder e de dom Paulo.

Dom Paulo não se recusou a responder a nenhuma pergunta. Vez por outra, queria saber a minha opinião. E ouvia pacientemente meus comentários.

Entendi como uma forma de aceitar opiniões diferentes e como um direito que todo entrevistado tem de saber qual é o grau de conhecimento do entrevistador sobre o assunto.

Eu havia conversado com dom Pedro Casaldáliga, bispo de São Félix do Araguaia (MT), punido nos anos 80 por Ratzinger com o “silêncio obsequioso”. E com outros membros da Igreja atingidos pelo processo de esvaziamento da Teologia da Libertação.

Do padre beneditino Marcelo Barros, secretário para assuntos de ecumenismo de dom Helder entre 1967 e 1976, ouvi que o arcebispo de Olinda e Recife, por seu estilo, sofreu em silêncio.

“Ele já estava em idade avançada e sua reação foi adoecer. As veias de suas pernas estouraram. Por formação, quando se tratava de questões da igreja, ele não protestava. Ele tinha consciência de que, se reagisse contra as ordens de Roma, iriam sofrer as pessoas ainda ligadas a ele”, disse o padre.

Durante a entrevista, perguntei a dom Paulo: “O senhor enfrentou a linha dura do regime militar e também a linha dura da Cúria Romana. Esse processo foi muito doloroso?”

Ele respondeu: “Entre os militares, a linha dura era, de fato, uma linha dura no sentido total. Enquanto entre os cardeais a linha dura nunca é no sentido total. Porque eles ouvem muito a parte dos fiéis que reclamam quando há uma linha dura demais”. E concluiu: “Nós não temos a temer nada”.

Como diz o padre historiador José Oscar Beozzo, que me autorizou a citar trechos de seu livro [“A Igreja do Brasil“], dom Paulo “não se curvou”.

Uma curiosidade: na época, dom Paulo achava que eram mínimas as possibilidades de um cardeal latino-americano vir a ser eleito papa.

“A história do mundo se desenvolve na Europa, na Ásia e na América do Norte. É difícil sair um papa daqui. Pode ser que aconteça, porque o Espírito Santo nunca perguntou para nós… Ele age como quer”, comentou, de bom humor.