O recuo “operacional” da Lava Jato

Por Frederico Vasconcelos


Ao negar que a redução do efetivo dedicado à Lava Jato em Curitiba tenha motivações políticas ou orçamentárias, a Polícia Federal disse que a opção foi “operacional”, segundo revela a Folha.

A palavra operacional permite vários usos e, em alguns casos, nada define.

“Isso é operacional, Excelência; e não tem nada a ver com as prerrogativas de Vossa Excelência.”

A frase foi usada por agentes da Polícia Federal na prisão do desembargador José Eduardo Carreira Alvim, em abril de 2007, durante a Operação Hurricane, no Rio de Janeiro.

Em livro, ele diz que a expressão foi repetida quando revistado e algemado, e nas duas vezes em que, constrangido, teve que se despir.

Em Brasília, nos dias atuais, muitos devem temer a chegada dos operacionais homens de preto à sua porta, às 6h da manhã.

Esse receio deve ser alimentado por certas operacionalidades: cabeça raspada, conduções coercitivas, ou excessos nas conduções espontâneas, digamos assim (como as algemas colocadas em Flávio Maluf, para exposição televisiva, depois que o empresário pilotou o próprio helicóptero para se entregar à Polícia Federal, acreditando que ficaria livre dos braceletes da lei).

Os paisanos, não iniciados no linguajar da caserna e das corporações policiais, devem desconhecer os vários calibres e o alcance da palavra operacional.

Para o cidadão comum, operacional pode ser entendido como produtivo, ocupado, ligado, conectado, acionado etc.

Operacional –ou, na intimidade, Op– “é uma palavra utilizada frequentemente no dia-a-dia de militares e polícias, quer escrita em documentação oficial –-doutrinária e técnica–- quer como expressão oral”, explica um site de Portugal, criado por profissionais de foto-reportagem dedicados a cobrir assuntos de defesa, forças armadas e de segurança.

O nome do site, aliás, é “Operacional”, sugerido por um colaborador citado como “verdadeiro operacional”, antigo militar-paraquedista, há 20 anos dedicado à foto-reportagem.

No mercado de trabalho, uma conhecida agência de empregos, para efeito de cadastro, distingue o perfil profissional e o perfil operacional.

O primeiro alcança pessoas com formação superior, recém-formados ou estudantes no último ano da graduação. O segundo refere-se aos que atuam em áreas operacionais (eletricistas, porteiros, encanadores, pedreiros, metalúrgicos, seguranças e outros).

No caso de Curitiba, pode ser que a Polícia Federal tenha escolhido o termo no melhor sentido administrativo. Ou seja, de que a extinção desse braço da força-tarefa na Lava Jato “contribui para a obtenção de um resultado pretendido”, como está no Houaiss.

Ou no Michaelis, ao exemplificar o uso de operacional nos casos em que “o Estado tem que reduzir os seus custos operacionais melhorando a qualidade dos serviços públicos”.

Não parece ser o caso.

A julgar pela preocupação do procurador da República Carlos Fernando dos Santos, da força-tarefa da Lava Jato, para o presidente Michel Temer parece ser mais operacional liberar verbas “para salvar o seu mandato” do que “trazer delegados” para Curitiba.

“A força-tarefa na operação Lava Jato deixou de existir”, conclui o procurador.

Para os procuradores da República, “a distribuição das investigações para um número maior de delegados e a ausência de exclusividade na Lava Jato prejudicam a especialização do conhecimento e da atividade, o desenvolvimento de uma visão do todo, a descoberta de interconexões entre as centenas de investigados e os resultados”, afirmam, em nota.

Para a Polícia Federal, também em nota que lista outros aspectos, “a medida visa priorizar ainda mais as investigações de maior potencial de dano ao erário, uma vez que permite o aumento do efetivo especializado no combate à corrupção e lavagem de dinheiro e facilita o intercâmbio de informações”.

Ainda a PF: “Com a nova sistemática de trabalho, nenhum dos delegados atuantes na Lava Jato terá aumento de carga de trabalho, mas, ao contrário, ela será reduzida em função da incorporação de novas autoridades policiais”.

A experiência dirá se a Operação Lava Jato um dia será rebatizada como Operacional Lava Jato.