Os 1500 dias de Janot em 9 minutos

Por Frederico Vasconcelos


O texto a seguir é a íntegra do discurso proferido nesta sexta-feira (15), em Brasília, pelo secretário de Cooperação Internacional, Vladimir Aras, em homenagem ao mandato do procurador-geral da República, Rodrigo Janot.

***

Amigos, Amigas

Um discurso deve ser breve como um suspiro. É o que se diz. Este terá 9 minutos.

Suspiramos hoje de alívio pelo dever cumprido e com um aperto no peito, pela saudade que já chega, podemos dizer que valeu o esforço do caminho. Valeu porque viemos juntos!

Senhor Procurador Geral da República Rodrigo Janot Monteiro de Barros.

Hoje é seu aniversário e dia de comemorar a sua vida. Hoje é também o dia de celebrar o seu mandato. Hoje é dia de parabéns por tudo!

Foram tantas vitórias e avanços que seu ilustre conterrâneo que dá nome a este auditório diria que foram 40 anos em 4.

Hoje é dia de festejar a amizade que nos une desde o início e também nos junta aqui nessas horas finais de uma belíssima história de fé na Justiça e de amor pelo Brasil. A sua história!

Senhoras, Senhores,

Viemos aqui celebrar esses quatro anos.

Instituições, empresas ou gestões são formadas por bens materiais e por ideais e valores. Instituições são formadas sobretudo por pessoas. E é por Vossa Excelência, senhor Procurador-Geral, e pelas pessoas que formaram sua equipe que estamos aqui hoje. Para festejar este momento que talvez seja o último em que V. Exa. terá voz como PGR neste salão.

Para registrar desta tribuna seu esforço contínuo e sua dedicação inabalável desde o primeiro até o último dia de sua gestão, estamos aqui.

Prezados colegas, amigos, amigas. Um discurso deve ser breve, já o disse, mas, quando se trata de uma despedida, as palavras devem fazer reverência à saudade e à gratidão. Saudades trazem choro, que vem exatamente porque lhe somos gratos, Janot.

Lágrimas assinalam nosso contato com nossas emoções. São também, as lágrimas, o lubrificante das janelas da alma, por onde pomos para dentro as experiências doces e amargas, e de onde brotam os rios com que pomos para fora tudo aquilo que supomos esconder aqui dentro.

E aqui dentro temos gratidão.

Hoje é o fim. Mas nem todo fim é triste. Grandes homens como Vossa Excelência não passam nem morrem. Grandes homens frutificam, proliferam, deixam filhos, de sangue ou do coração.

Deixam de herança crenças, fé, forças, utopias. Deixam lições, nortes, confianças, alegrias. Deixam feitos .

Dias como o de hoje não marcam rotas que acabam num abismo ou no olvido; sinalizam destinos que se consumam e se completam com alegria na alma, sem murmúrios, sem mágoas, embora machucado o corpo.

Senhor PGR Rodrigo Janot, forte é seu espírito e grande o seu exemplo. Como poucos, V. Exa. ouviu o alerta de Martin Luther King: “a injustiça num lugar qualquer é uma ameaça à justiça em todo o lugar”.

A vida passa diante de nós, passam grandes feitos, enormes talentos. Às vezes os vemos sem refletir, e aí, não os vemos de verdade. Nós vimos! A recepção calorosa de hoje a V. Exa. mostra sim que todos nós vimos o seu vulto!

Rodrigo Janot foi um grande PGR, grande como este gigante que vemos diante de nós, Sepúlveda Pertence, patriarca do MP e criador das bases que permitiram as realizações que vemos hoje.

Janot foi exemplo de destemor diante dos desafios, do vilipêndio, da cruel calúnia e da torpe inveja. Foi e é um homem de decisões e feitos.

De Provérbios 21:15, vem a lição: “A execução da justiça é motivo de alegria para o justo; mas é espanto para os que praticam a iniqüidade.”

Quantas vezes a vimos assomar sua cabeça serpentária ao longo desses quatro anos!

Rodrigo Janot foi também um grande chefe.

Conduziu-nos por tempos sombrios e por entre os espinhos da estrada, sempre com sorrisos, um dito espirituoso qualquer arrancado das entranhas do Brasil, um incentivo, uma solução, sempre com coragem.

Nesses quatro anos eu vi a perplexidade deste homem. Eu vi sua alegria e disposição. Eu vi a sua profunda fidelidade ao Ministério Publico. Eu vi as certezas. Eu vi as dúvidas. Eu vi seu tirocínio, vi suas virtudes e os defeitos que o fazem homem. Eu vi o homem, não o personagem, e ele era real. Vi seus admiradores aqui e de longe daqui. Vi o respeito que alcançou entre seus pares de todo o mundo.

Vi os invejosos e os ressentidos. Vi a vileza da traição, vi a firmeza da reação. Vi sua grandeza.

Na cadeira solitária de onde V. Exa. chacoalhou o país para fazê-lo melhor, não há assento tranquilo. Não se pode sentar ali sem altruísmo, humildade e generosidade.

Contarei quatro episódios que, para mim, o definem.

Com Pizzolato, foragido da Justiça no caso Mensalão, não titubeou. Disse na primeira hora: tragam-no! E fomos lá, Pelella e eu, contra todos os prognósticos e o trouxemos. Graças a sua determinação.

Numa das muitas missões que fiz com Rodrigo Janot, fomos ao Foro Econômico Mundial em Davos. Convidado pelos organizadores, ele teria direito a hotel luxuoso na própria cidade. Preferiu ficar com seus assessores num hotel pequeno numa cidadezinha a quilômetros dali. A quem perguntasse por que, ele diria: estamos juntos para o que der e vier. Janot companheiro desprendido.

Certo dia, o Procurador Geral da República do Paraguai Javier Diaz Verón pediu a ajuda do nosso PGR para uma extradição importante. “Seu problema é meu problema”,
disse Janot.

Esse resumo simples e claro de nossa missão de promover justiça onde quer que seja tornou-se o mote da cooperação internacional sob sua batuta. Janot solidário.

Por fim, não poderia deixar de mencionar a famosa reunião de coordenação entre a PGR e a FTLJ [Força-Tarefa da Lava Jato] de dezembro de 2014.

Tudo poderia ter sido como antes, gestões razoavelmente tranquilas com metas confortavelmente definidas ao gosto do PGR.

Mas o maior caso de corrupção transnacional do planeta estava diante dele em semente. E, como se repetisse a música, o PGR decidiu: vamos lá fazer o que será! E fez.

Estas tantas outras decisões difíceis não foram tomadas de um trono ou altar, mas, singularmente, de uma mesa redonda, que iguala as pessoas que se sentam em torno
dela. Uma mesa sem gavetas, como tinha de ser.

Este é Janot. Não titubeia, é generoso, confia em sua equipe, age com coragem.

Nestes quatro anos, presenciei auditórios entretidos por suas exposições, interlocutores estrangeiros capturados por suas palavras.

Presenciei auditórios de pé!

Tive a honra de estar ali e aqui e eu vi o surgimento de um líder global, respeitado por grandes e pequenos de várias partes do mundo. Vi a construção de uma grande
personalidade do nosso tempo, cujo lugar de destaque está guardado não só entre nós, mas para além do Brasil.

Eu vi, vocês também viram, momentos emocionantes, tensões imensas que as gerações vindouras estudarão nos livros de história como um capítulo crucial para o
processo histórico em que todos estamos imersos, e do qual especialmente ele, nosso Chefe, é personagem ativo e altivo, protagonista da ação e que, naturalmente,
encontrou antagonistas dados a vilanias e que pesam como toneladas sobre nosso destino, agindo como passivos na contabilidade histórica desta nação.

E quando o homenageio com estas palavras, digo não apenas, “chefe”, mas com todas e merecidas letras, digo: “meu querido chefe”. E o digo sem receio nesta casa que
tanto preza a independência e recusa a subserviência. E o digo porque Rodrigo Janot foi mais do que isso; foi um líder, a quem tive a inesquecível honra de chamar assim por quatro dos 24 anos de minha carreira no Ministério Público.

Tive também a enorme honra de vê-lo conduzir o MP brasileiro aonde jamais havia ido, tanto na geografia, quanto no prestígio.

Vida longa e próspera, querido chefe, prezado colega Janot, estimado Rodrigo.

Deus, em quem você diz não acreditar, nos presenteou com sua vida. Deus nos trouxe nu, dia como hoje o milagre de Maria, sua neta de coração, um signo de esperança e de perseverança.

Deus nos permitiu ter você a conduzir o Ministério Público Federal, nestes dias de árduos caminhos para o País. Deus lhe deu uma pesada cruz – que era mesmo sua – e você esteve à altura do desafio e altivamente o cumpriu.

Missão cumprida, missão comprida. Dias longos e intensos, noites curtas e tensas foi o que lhe entregaram em setembro de 2013. E foi o que vc gratamente aceitou receber, diferentemente de outros tantos, apenas vaidosos, que buscam a ilusão de poder e glória e, que, por isso mesmo, servem como o fantasma que os atormenta todos os dias.

Seu fardo foi imenso. Sua família sofreu com suas ausências e com as calúnias.

Meus sinceros respeitos a Dona Junia, tão brava e companheira; meu caloroso cumprimento a Letícia: orgulhe-se muito do pai que vc tem.

Foram quase 1500 dias em alta velocidade, no timão dessa grande instituição republicana.

Chegou para você a alforria. Sai o peso terrível deste caso e deste cargo. Que fiquem a sua alegria, suas boas histórias, seu alterego de chef (de cuisine) e as boas memórias. Que fique a lembrança da enorme honra que tive eu, que tivemos todos juntos, juntos mesmo eu quero dizer, de poder chamá-lo de chefe, nestes quatro maravilhosos e espetaculares anos de nossas vidas, que, graças ao seu denodo e coragem, senhor procurador-geral e querido chefe Rodrigo Janot, vão entrar para a história do Brasil.

“A maior necessidade do mundo é a de homens – homens que não se comprem nem se vendam; homens que no íntimo da alma sejam verdadeiros e honestos; homens que não
temam chamar o pecado pelo seu nome exato; homens, cuja consciência seja tão fiel ao dever como a bússola o é ao pólo; homens que permaneçam firmes pelo que é reto, ainda que caiam os céus.” (Ellen White).

Saibam, jovens amigos, companheiros maduros, mas não velhos, a vida não é morna e insossa. A vida abraça quem vibra, acalenta quem tem fibra, anima quem tem alma e
coração. Vivemos estes tempos juntos, graças a RJ.

Obrigado por confiar em nossos trabalhos e também por nos permitir partilhar dessa fé pela Justiça, obrigado por confiar em todos nós, obrigado por nos dar o tempo preciso e a atmosfera adequada para que consolidássemos nossas amizades pessoais e cumpríssemos nossos compromissos públicos.

Obrigado, Rodrigo Janot, por nos trazer até aqui e nos proporcionar uma experiência inesquecível. Obrigado por nos permitir sonhar com o impossível e estar de olhos abertos para ver os primeiros raios de Sol do dia que vai raiar. Para nossos filhos. E por eles.