É a lama, é a lama… mas não é o fim do caminho

Por Frederico Vasconcelos

Para definir o ano de 2017 nas áreas da política e da justiça, o escritor Francisco Dias Teixeira, subprocurador-geral da República aposentado, recorreu à imagem do mar de lama a ser atravessado.

“O cataclisma que transformou a água em lama não é de hoje nem ocorreu lentamente. Este ano talvez seja o seu ápice; o ponto em que mais barro veio à superfície e a lama se adensou”, diz.

Em 2018, segundo ele, “estaremos entrando numa zona de desembocadura da lama”.

Certamente o ano será convulsionado pelas eleições, mas a corrupção na política terá superado o seu ponto crítico, as investigações estarão em fase de equacionamento/conclusão, acredita.

Ele espera vislumbrar, no próximo ano, “um porto à frente, que, por suposto, não será definitivo, pois esta viagem não tem fim”.

Teixeira estudou Direito (PUC-SP) e Filosofia (USP). O procurador aposentou-se, como diz,  com a intenção de se dedicar a escrever. Publicou cinco livros –romances e poemas– e mantém dois blogs de crônicas.

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Como avaliar este ano de 2017 e estimar o que 2018 nos guarda? Provavelmente, muitos dos fatos que vivenciamos neste ano determinarão o próximo. Refiro-me às áreas da Política e da Justiça (não ousaria aqui falar de Economia).

Procurei uma metáfora que expressasse a vivência nesse período. Mas todas as ideias eram insignificantes e frágeis diante da realidade. Então me veio esta, já surrada: “nadar em mar de lama”.

Mas ampliada de seu significado usual, restrito à corrupção da política. Representaria todo o espaço temporal definido por Ano-2017, transbordando para 2018, e todo o nosso drama para fazer essa travessia.

Não deve ser fácil a um nadador, mesmo experiente, atravessar um mar-de-lama, literalmente falando. A densidade da matéria a ser (ré)manejada dificulta o avanço; a sua viscosidade e opacidade obsta a visão de um ponto aonde chegar. Uma embarcação também há de ser especialmente resistente para vencer um mar tão hostil. Pois é assim que vejo este ano, para nós-brasileiros.

E diga-se mais uma vez: o cataclismo que transformou a água em lama não é de hoje nem ocorreu instantaneamente. Este ano talvez seja o seu ápice; o ponto em que mais barro veio à superfície e a lama se adensou.

Portanto, a minha expectativa para 2018 é que estaremos entrando numa zona de desembocadura da lama; e, consequentemente, avizinhando de um mar onde se possa nadada/navegar com menos desgastes.

Se se classificarem as pessoas nas categorias “pessimista” e “otimista”, fico eu neste grupo. Já pela simples razão de que, mesmo navegando/nadando em lama, os nossos braços e embarcações (instituições) resistiram, ainda que com uma lesão aqui ou uma avaria ali. Mas nada que comprometa a viagem…

O próximo ano certamente será convulsionado pelas eleições. Mas a agitação (a crer, conforme acredito, que ocorrerá nos limites institucionais e democráticos) será tendente à superação de uma das questões que têm dificultado a viagem neste ano: a excepcionalidade da investidura do atual Presidente da República, em decorrência do impeachment da titular (não se discute aqui as suas causas). Eleito um novo Presidente, não haverá um dos motivos/argumentos que entravam a realização de medidas cuja necessidade parece ser admitida pela maioria da população e mesmo da classe política.

Outro, e talvez o maior, tormento por que temos passado: a corrupção na política. Também creio que estamos superando o seu ponto crítico: as investigações e consequentes punições dos corruptores e corruptos estarão em fase de equacionamento/conclusão. Não se prevê que, em 2018, venha-se desvendar “esquema criminoso” mais ou tão ousado que esses que já vieram à tona; nem identificar como criminosos personagens mais relevantes da cena política, que os já revelados.

Os políticos com liderança nacional, em sua quase totalidade, neste final de 2017 já foram apontados como partícipes ou líderes de “organização criminosa”, denunciados e até condenados, sem que isso tenha causado ruptura no funcionamento das instituições políticas.

Certamente, 2018 será ainda um ano difícil; e haverá traumas decorrentes das próprias eleições, cujo resultado ainda não se pode prever. Mas, dadas as adversidades que temos suportado e resistido, é de se esperar que as próximas vão ser bem superadas.

E espero que, em 2018, já vislumbremos um porto à frente, que, por suposto, não será definitivo, pois esta viagem não tem fim.