Frederico Vasconcelos

Interesse Público

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Repórter especial, trabalha na Folha desde 1985. No blog, reúne textos investigativos, aborda gastos públicos, política nacional e judiciário.

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“Irreprimível desejo de participação”

Por Frederico Vasconcelos

Apesar dos riscos, movimento “tem tudo para melhorar a sociedade”, diz juiz.

Sob o título “Melhorar a nossa sociedade“, o artigo a seguir é de autoria de Pio Giovani Dresch, presidente da Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul (AJURIS).

 

Todo movimento de grande envergadura social nos desafia a análises, e no rastro das recentes passeatas surgem milhares de leituras, expressas em artigos e comentários.

Numa ocasião dessas é difícil sair do lugar comum, mas desde logo considero dispensável falar da legitimidade do movimento e da simpatia que desperta ou deplorar os excessos de alguns de seus participantes.

Cabe também ignorar os profetas do acontecido: estes sempre souberam que isso um dia aconteceria e conhecem todas as causas da rebelião, geralmente idênticas ao que eles próprios pensam. O político de oposição vê nos protestos a revolta contra o governo, o empresário vê a contrariedade em relação ao valor dos impostos e à ineficiência da máquina estatal, e assim por diante.

De minha parte, sem a ilusão de maior sucesso na leitura, trago algumas observações pontuais para ao menos contribuir no necessário debate sobre o tema.

Primeiro, faço a melancólica constatação de que os jovens que hoje protestam somente o fazem porque os jovens que protestaram antes deles em sucessivas gerações pouco ajudaram a mudar o mundo. Não interessa saber se isso aconteceu por acomodação, incapacidade ou mesmo por limites estruturais intransponíveis; o certo é que muitos dos que fizeram a luta contra a ditadura, pela anistia, pelas diretas já, contra o FMI são hoje respeitáveis senhores e senhoras que ocupam cargos de poder, seja no âmbito político, seja no empresarial, e o mundo que eles preconizavam não se realizou. Os caras pintadas que derrubaram Collor estão com quarenta anos, e a corrupção continua, não sei se maior, mas certamente mais visível.

De certo modo, trata-se de um conflito geracional: ainda que os protestos tenham angariado a simpatia do conjunto da sociedade, trazem embutido o desejo de um mundo melhor, que os jovens de hoje cobram de quem pragmaticamente superou seus sonhos juvenis de outrora para fazer este Brasil que está aqui hoje.

Não que nosso fracasso tenha sido completo: dezenas de milhões de brasileiros saíram da linha da miséria, e hoje é difícil negar que nosso país é menos injusto e desigual do que era há alguns anos. Aliás, várias análises que se fazem dos acontecimentos apontam como causa a falta de atendimento das novas demandas dessa classe média emergente (ou mesmo da antiga classe média, confrontada com uma maior competição por bens e serviços insuficientes).

De minha parte, embora concorde que a frustração econômica possa de algum modo influir nos acontecimentos, penso todavia que o grande motor das mobilizações se concentra no plano dos valores e da representação.

Embora tenham morrido as utopias que animaram tantas gerações, permanece a necessidade de lutar contra todos os modos de corrupção, de preservar nosso mundo e as espécies que nele vivem contra a depredação que se faz em nome do progresso, de denunciar os ataques obscurantistas contra um mundo mais tolerante, hoje visíveis nos felicianos tão bem albergados em nosso Congresso.

Quanto à representação, a percepção de que a política se faz com troca-trocas sem princípios, no contexto de um sistema político-partidário-eleitoral nunca mexido, leva à percepção de déficit de cidadania, ausência de representação. E se o Legislativo melhor retrata esse divórcio em relação ao desejo de cidadania, os demais poderes não estão imunes às críticas. Em todos os seus níveis, o Executivo tem optado por políticas questionáveis em termos de inclusão (e o movimento começou questionando o preço das passagens de ônibus, que, hoje se sabe, poderiam ser mais baratas); e o próprio Judiciário com frequência frustra a expectativa social, seja por sua lentidão, seja por tomar decisões que contrariam valores hoje brandidos nas passeatas.

No que darão as mobilizações não se sabe. A própria novidade desse movimento pós-moderno, que não veicula utopias e dilui as mais diversas demandas, dificulta qualquer prognóstico.

Como em todas as explosões populares, vem com ele também o risco da desvirtuação, como ocorreu por ocasião da ascensão do fascismo, ou da reação conservadora, principalmente se os atos mais violentos preconizados por alguns levarem a um crescendo de violência.

Trata-se, todavia, de um risco inerente a qualquer movimento catártico da sociedade, que não impede seja saudado como veículo de um irreprimível desejo de participação de novos atores, que tem tudo para melhorar a nossa sociedade.

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