Clientelismo na trajetória de Aécio Neves

 

O sociólogo Rudá Ricci, diretor do Instituto Cultiva, distribuiu entre amigos –para colher críticas e sugestões– um capítulo do livro que está escrevendo sobre Aécio Neves.

Na obra, a trajetória do político mineiro começa em São João del-Rei, com as primeiras articulações políticas do neto de Tancredo Neves, e alcança os oito anos em que o tucano governou Minas Gerais.

Segundo o autor, “o recurso metodológico do estudo de caso teve como intenção compreender a operacionalização das relações políticas clientelistas estabelecidas pelo governo Aécio Neves e o gerenciamento do Choque de Gestão”.

Em agosto de 2006, reportagem  da Folha revelou que o governo Aécio Neves fez maquiagem contábil nas contas de 2003 e 2004 para esconder a não-aplicação de recursos de saúde nos percentuais determinados pela Constituição Federal.

O artifício ocorreu no período em que Aécio lançou os programas “Déficit Zero” e “Choque de Gestão”, carros-chefes da campanha para a reeleição.

O livro sugere que Aécio Neves foi uma liderança com forte e rápida ascensão pública, mas que não conseguiu construir e administrar uma estrutura política consistente.

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Eis alguns trechos da obra:

– Não há como desvencilhar a trajetória de Aécio Neves da de seu avô. Há certa ligação mística desta cidade [São João del-Rei] com Tancredo Neves.

– Aécio aproveitou o momento de comoção da população com a morte de seu avô e estruturou sua primeira campanha sobre essa base afetiva.

– Na sua primeira campanha eleitoral, Aécio contou pela primeira vez com a presença de sua irmã, Andrea Neves, na coordenação política.

– Os médicos de São João del-Rei parecem compor uma sustentação política específica a Aécio em São João.

– O Hospital Nossa Senhora das Mercês e a Santa Casa de Misericórdia passaram a depender de emendas parlamentares para se manterem em funcionamento. Existe uma campanha permanente, vinda de lideranças mais à esquerda, para a federalização desses hospitais.

– Distintas da primeira campanha realizada em 1986, onde a linha a ser explorada era basicamente a afetividade que as pessoas tinham por Tancredo, nas campanhas seguintes (1989, 1993 e 1997) a orientação passava a incluir uma defesa mais incisiva da imagem de Aécio Neves, destacando seus feitos nos mandatos anteriores.

– Aécio interferia muito pouco nas campanhas, uma vez que estas ficavam a cargo do núcleo encabeçado por Andrea Neves, que compunha o comitê eleitoral.

– Já como governador, as lideranças locais e regionais passaram a ser os comandantes territoriais do grupo político (e de suas gestões) de Aécio Neves. Uma característica pessoal que o distinguiu da liderança fortemente personalizada de seu avô, advinda de seu perfil, mas também da força de seu núcleo político central, alicerçado na figura de sua irmã.

– O braço direito de Andréa em São João Del Rei era Juliane Menezes, responsável pelos recursos financeiros, juntamente, com Newman Torga que ficava na função de tesoureiro, fiscalizando o caderno de finanças do Núcleo Político Aecista.

– Os contatos políticos no município também eram mais uma das atribuições de Juliane Menezes, que mais adiante assumiria o cargo de presidente do Conselho Curador da Fundação Cultural Campos de Minas – TV Campos de Minas.

– A coordenação geral das campanhas eleitorais de Aécio Neves como Deputado Federal de 1987 a 2002, contava ainda com Valéria Cordeiro, que mais tarde, em 2003, tornou-se assessora especial de Aécio como governador do Estado de Minas Gerais, e posteriormente, do governador Antônio Anastasia.

– No período seguinte à sua eleição como deputado federal, em 1986, Aécio Neves transferiu-se do PMDB para o PSDB.

– Mais uma vez, a movimentação de Aécio Neves não foi motivada por princípios ideológicos ou programáticos, antes, pela teia de relações e influências pessoais.

– Em 2004, Aécio Neves havia aumentado a projeção de sua imagem com o lançamento do Programa Choque de Gestão, o que propiciou a formação da aliança do PSDB com o PT de São João del-Rei, garantindo o mandato do tucano Sidney Souza como prefeito do município entre 2005 e 2008. Seu mandato foi abastecido por recursos do governo estadual. Foi o período de maior envolvimento de Aécio em São João del-Rei.

– Próximo ao fim do mandato de Sidney vieram à tona diversas irregularidades praticadas em seu governo, passando a ter várias licitações e convênios investigados. Na manhã do dia 20 de junho de 2008, a Polícia Federal cumpriu um mandato de busca e apreensão na prefeitura de São João del-Rei.

– Esta dinâmica instável de seu grupo local pode sugerir uma explicação que se repetiu ao longo do Estado de Minas Gerais: uma liderança com forte e rápida ascensão pública, mas que não conseguiu construir e administrar uma estrutura política consistente.

– Mesmo assim, os laços de afetividade e os benefícios de tipo clientelista unificaram seus grupos de apoio. Em poucas palavras, a unidade parece ter sempre sido sólida, mas insuficiente para garantir sua hegemonia.

– São João del-Rei sugere uma liderança política com baixo nível de organização orgânica.