Um raro industrial que denunciou a tortura

Em artigo publicado nesta sexta-feira (12/10) na Folha, sob o título “As presenças de Severo”, Paulo Sérgio Pinheiro, professor titular de ciência política aposentado da USP e ex-secretário de Estado dos Direitos Humanos (governo FHC), traça o perfil de Severo Gomes, político e empresário que morreu há vinte anos num acidente de helicóptero, em Angra dos Reis. “Um raro industrial de São Paulo contra a tortura, caiu por denunciá-la”.

Eis alguns trechos do artigo:

Nesses dias em que a Comissão Nacional da Verdade começa a desvendar os crimes dos agentes de Estado na ditadura militar, ganham sentido as denúncias de tortura que Severo Gomes, ministro no governo Geisel, levava corajosamente ao centro de governo.

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Liberal num governo autoritário, apoiou a realização na Universidade de Brasília da reunião de 1976 da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), uma das gigantescas assembleias pela democracia das quais sempre participava.

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Severo se inquietava com a situação das prisões no Brasil, 90 mil presos submetidos à superpopulação e a condições inumanas -hoje são 515 mil detentos, a quarta maior população carcerária do mundo, depois dos EUA, da China e da Rússia.

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Severo, no Senado, dedicou-se aos temas da transição política e do Estado de Direito. Na Constituinte, foi um dos relatores do artigo 5º da Constituição de 1988, que trata dos direitos individuais.

Ali defendeu os direitos dos afrodescendentes, organizando o primeiro seminário sobre racismo na história do Senado Federal. Defendeu arduamente os povos indígenas, junto com a comissão pela criação do Parque Yanomami.

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Em um fim de tarde cinzenta em Angra dos Reis, Maria Henriqueta, sua mulher, sobe a escada de um helicóptero, onde já estavam Ulysses Guimarães e sua mulher, Mora. Antes de entrar, Severo, um lenço amarrado em volta do pescoço, sorri. A cerimônia dos adeuses foi fugaz. O que nos resta é não esquecer.  

 

Comentários

  1. Corrigindo os erros:

    Me lembro da época das trevas que vieram de Alagoas. Daqueles episódios desencadearam-se muitas ocorrências suspeitas. Mais suspeito, ou talvez superlativamente cínico, foram os silêncios dos opositores e adesistas. Brizola, FHC e Lula se calaram, quando o que se esperava era uma indignação que pudesse por em movimento uma reforma dos aparelhos de segurança pública. Mas não, usaram-nos aos seus serviços.

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